terça-feira, 14 de maio de 2013

Fotografia

São 21. Três mulheres. Uma negra. A conjuntura responde à exclusão das mulheres dos espaços políticos, onde são colocadas apenas para cumprir uma reserva obrigatória de 30% das vagas para as eleições.

São dois pastores e há uma bíblia na mesa que, comumente, é lida no início das sessões, onde a laicidade do Estado é desrespeitada. Dia desses, encontrei um embriagado no boteco com a camisa desabo...toada. Que assim seja!

Cinco professores. Três votaram contra a própria classe, confundiram as profissões. Dois jornalistas. Trabalham ambos com um formato de programa que finge dar voz à população e só reforça a marginalização e preconceito com as minorias.

21 cadeiras brancas onde sentam 247.505 cidadãos imperatrizenses. Nos corredores da Casa, quem deveria pedir direitos pede dinheiro. De terça à quinta, paredes com ouvidos de cão. Nos outros dias, reúnem-se na sala de imprensa para assistir a qualquer coisa que não seja o jornal.

Incontáveis propostas, arquivadas logo depois de lidas. Quase tudo que é falado, logo cala. Fica guardado em vídeos sem vida. Passam mais tempo ofendendo inimigos e bajulando aliados que debatendo os problemas que a gente tem e o problema de nos faltar muita coisa. De que adianta tanto discurso e baixaria, tanto teatro, se tem tanto espaço vago na galeria?

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

O cego

Quando teus olhos sumirem
será dentro dos meus.
Vão se perder devagar
e lutar com vigor até o fim.
Porque tudo foge aos olhos
e já não há um motivo
para que voltemos a nos ver.
Eles, aprisionados, se espremerão, zarolhos
para que voltem a ser notados.
Mas as lágrimas cessaram
e tuas pupilas, estáticas,
quase deixam o sal passar desapercebido.
Quando a escuridão for real,
eles nem precisarão se desviar.
Cicatrizes vendadas,
não há sequer um grau de miopia.
Seguiremos sem bengalas, óculos,
sem tropeços...
E quando olharmos para trás,
as mãos que brincam a nos cobrir a visão
pertencem a outros.
Um dia, talvez, pedirei perdão,
por te cegar.
SEnti saudade dos dias castanhos.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Naquele dia as persianas não emperraram. É provável que fosse a primeira vez. Ao mexer nelas já esperava logo que travassem e se atravessassem. Mal acreditou quando as mãos, miúdas, manusearam as três cordas na perfeição de um balé (Chopin conduzia os passos). Catarina sentou-se na pontinha da cama quase aliviada. Mesmo que brevemente. A cortina até pareceu entender sua dor e dar uma trégua proteg
endo-a dos olhares curiosos da vizinhança ou, como pensou – “Poupando-os de serem contagiados de tanta tristeza”.
Não era mulher de se fazer de coitada. Apesar de, por vezes, nem se achar mulher feita. Catá sentia até um forte asco pelo seu choro fácil. Não conseguiu verter uma lágrima sequer, mesmo com a sensação de ter um rolo compressor esmagando tudo o que tinha entre um seio e outro. – “Não há melhor forma de aprender a dosar o próprio veneno que bebendo-o!”.
Catarina nua, em frente ao espelho, ainda era a mesma. Parecia, no entanto, ter-lhe fugido a alma e, como ela desejou, culpada, por alguns segundos, a vida. Entornou três copos de vinho como fosse cachaça e riu-se descontroladamente. Riu de si. Caiu descabelada no chão quase convulsivamente. Os sufocos sempre passam, sabia. Mas enquanto não passasse, com as janelas fechadas, quem a impediria de ser apenas uma menina histérica? – “Ah, minha menina, há tanta coisa e gente conhecida a ser descoberta!”.
Quase acreditou em D/deus. Quis mesmo sentir-se inteira. Concluiu que algumas companhias têm de ser inventadas para esconder essa solidão, condição do existir. Era a criatura mais pequenina dos tempos. A juba perdeu a realeza, os olhos negros murcharam. Cada poro seu pesava uma tonelada. Agora entendia. A persiana branca desceu leve e macia guilhotina de tão afiada. Catá, Catarina, a desmiolada. Perdeu a cabeça e esqueceu que paixão é covardia. Não se ama de janela escancarada!

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Jardim das Rosas

Tem uns 17 anos. Eu, travessa, vivia dependurada e tinha uma enorme atração por situações de risco.(Que o diga o pé de goiaba que me levava diretamente para meu refúgio no telhado da casinha do quintal). Estou, um dia, enganchada pelas pernas (sim, de cabeça para baixo) em uma grade que ficava no teto  quando surge a Dona Cidinha (Senhora que trabalhou na nossa casa por mais de dez anos) e dá um grito daqueles:
- Menina! Tu quer me endoidar? Quer ir pro Jardim das Rosas?!
Como toda moleca peralta, já estava acostumada com aqueles chiliques. Naquela situação, no entanto, bateu uma ansiedade...Coisa de criança. Sumi por uns tempos pelo meu quarto e a Dona Cidinha ficou meio tranquila, meio desconfiada...
Quando o pai chegou para almoçar, eis que surjo pelas escadas im-pe-cá-vel! Estava no meu melhor vestido, num cheiro só e com o cabelo penteadíssimo. Até o calçado das ocasiões especiais havia colocado.
- Vamos pai?
- Pra onde, minha filha? (Ele já naquela respiração impaciente de quem não tem muito tempo e sequer lembrava de ter marcado algum compromisso comigo)
- Pro Jardim das Rosas!
O pai não falou absolutamente nada. Olhou pra Dona Cidinha com uma interrogação enorme no rosto. Ela também escolheu o silêncio e engoliu a saliva quase à seco. Glup.
Deve ser realmente angustiante ver um filho arrumado para a morte. Naquele dia não fui ao Jardim das Rosas. Fiquei muito triste e comportada pelo resto da tarde. Devia ser um lugar lindo! Fui algumas vezes bem depois, enterrar os meus e, em nenhuma dessas visitas, voltei para ver quem tinha deixado pela última vez.
Espero não ter tempo de me arrumar quando for a sorteada. Quando for minha hora de fazer moradia lá, no Jardim de cimento, entre as rosas de plástico.
 

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

CONTRA A PISTOLAGEM, EM DEFESA DA TERRA E DA VIDA


Carta aberta das famílias de Trabalhadores Rurais Sem Terra, acampados a seis anos na Fazenda Cipó Cortado, município de Senador La Roque/Amarante - MA.




Vimos, por meio desta carta aberta, contar nossa história de luta e resistência pelo direito a terra, trabalho e a vida digna.
No início dos anos 80, cerca de 30 mil hectares de terras da União foram grilados por Ambrósio Fidélis, vulgo mineiro, latifundiário que expulsou violentamente centenas de famílias, cometeu vários crimes ambientais, entre eles o desmatamento total da área para a venda de madeira, causando a desagregação de todo o ecossistema da região para dar lugar o cultivo do capim.
Nos anos 90 o Governo Federal, através do INCRA, identificou está área como terras da União e entrou na justiça pedindo reintegração de posse das 30 mil hectares. Após 14 anos (2006), o Superior Tribunal de Justiça determinou que o INCRA retomasse apenas 8.200 hectares, e usasse a área para a criação de assentamentos de Reforma Agrária. Portanto a grilagem de 21.800 hectares foi “legalizada” por órgãos do Governo Estadual com a conivência do INCRA, favorecendo o processo de grilagem em terras da união.
A decisão do STJ de desapropriação de apenas 8.200 hectares não foi cumprida porque a Polícia Federal alegava não ter contingente e a Polícia Militar argumentava que não tinha autorização da Secretaria de Segurança Pública do Estado do Maranhão.
Diante do descaso dos Governos Estadual e Federal nós, 250 famílias que vivíamos na região, desempregadas e sem terra para morar e trabalhar, em 2007 ocupamos e passamos a produzir em parte das 8.200h consideradas  terra da União.
Mesmo tendo grilado 21.800 hectares, os fazendeiros não aceitaram a decisão judicial e resolveram disputar os 8.200 hectares destinados para assentamentos. Utilizando de violência, perseguição e tentativa de assassinato dos trabalhadores sem terra, através de milícias fortemente armadas, que circulam livremente na região, à luz do dia, o fazendeiro Francisco Elson de Oliveira tem liderado esse processo com o apoio de outros fazendeiros da região.
Os grileiros, cientes da morosidade do Programa Terra Legal, da burocracia do INCRA e do não comprometimento do judiciário com as questões sociais referente à Reforma Agrária, tentam de todas as formas nos expulsar da terra, que representa para todos nós a vida. Sem a terra para trabalhar não temos como sobreviver e não queremos ir para as cidades. Queremos viver no campo e produzir alimentos para todos que vivem na cidade.
Após várias denúncias e audiências com diversos Órgãos, entre eles, Ouvidoria Agrária Nacional, INCRA, Ministério Público, Defensoria Pública, Procuradoria Geral da União, Programa Terra Legal, Comando da Polícia Militar, até o momento não se tem nenhuma solução e a cada dia os grileiros investem mais ousadamente contra nós.
No dia 25 de outubro passado, OITO jagunços fortemente armados estiveram no acampamento numa caminhonete Hilux preta, vieram nos comunicar que um pernambucano tinha comprado a área e que nós tínhamos 24 horas para sairmos de nossas casas.
Nos dirigimos a Imperatriz - Ma e a comissão de representantes do MST e dos Direitos Humanos foi ao Comando do 3º Batalhão da Polícia Militar do Maranhão, onde comunicamos o ocorrido ao Comandante e fomos avisados que eles só iriam para a área com autorização do Secretário de Segurança Pública. Várias articulações foram feitas junto ao Governo do Estado sem nenhum sucesso.
Dia 27 de outubro passado, 12 pistoleiros armados entraram em nosso acampamento atirando e ferindo o companheiro Edmilson Tomáz dos Santos, de 26 anos, casado e pai de dois filhos.
A policia só chegou ao local horas depois do ocorrido. No hospital, o comandante tomou o depoimento do companheiro atingido e até o momento ninguém foi preso ou responsabilizado pela invasão do nosso acampamento nem pela tentativa de assassinato e lesão corporal contra nosso companheiro.
Quantos trabalhadores serão ainda ameaçados, feridos, espancados para que se resolva o nosso problema?
                O Governo está esperando que mais trabalhadores sejam assassinados no campo, para sob comoção nacional e internacional, se posicionar e solucionar o conflito?

Fotos de Daniel Sena

terça-feira, 18 de setembro de 2012

O vão

Depois de tudo, me procurar para conversar. Aceito. Sou cordial e esqueço fácil, bem sabes. Assim, volta como se tivesse viajado uns dias e esquecido de telefonar para avisar deixou a comida no microondas. Se te falasse a verdade, que pouco me importa esclarecer ou não as coisas que nem sei que coisas são, dirias que guardo mágoas e lamentarias a demora.

Acontece que faz um tempo que não penso em ti e que, mesmo o teu nome ou tua presença, já não incomodam. Não é que mudou o que vivemos. Fico muda se perguntas as novidades. Tampouco falo das alterações que, inevitavelmente, sofremos. Apenas são universos tão desconexos.

Nessas reviravoltas, pode ser que um dia a gente ainda se encaixe, pode sim. Acho bonito isso das pessoas se caberem. Mas não há cabimento algum entre nós. Posso, como antes, te escrever palavras bonitas. Nem imaginas quão poético pode ser o vazio. Rabisco mais uma “ode” ao teu retorno hipócrita, que não passa desapercebido por tantos que ainda tenho por perto. Mas devo confessar que não sinto verdade em tuas declarações, acredito que mais por não compartilhar delas que por serem falsas.

Fumo um cigarro atrás no outro esta noite e não há um trago que seja teu. Não quero machucar, pouco importa. Pensas, provavelmente, que respondo fria, que tento ser cruel, pouco importa. Não há aí um esforço sequer.

Sou ainda piegas, mais que antes. Quero para sempre os amores e os amigos. Mas são sempre novos os amores e os amigos. Renovam-se. Desculpa não te querer. O não querer dói uma dor com a qual se sobrevive melhor. O não ser querido é desconcertante. Só tenho a te oferecer um nervo adormecido.

Sou desejo e culpa. As luzes faltam do outro lado da rua enquanto escrevo asneiras debaixo do ventilador. Hoje, os bêbados se embriagam e não estou lá. Amanhã, ou depois, estarei. Sem a tua presença ou a dos vizinhos e de suas crianças barulhentas. Hoje, a vista é horrorosa da varanda, e a carga nas minhas costas é densa de saudades de quem se encaixa em mim. Uma dose de humanidade, por favor. Fraca! Não estou bem, mas estou bem melhor assim.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Grande Bacuri é Carlos Hermes


     A um mês das eleições, estamos cada vez mais otimistas. Fizemos ontem, às 17 horas, uma caminhada no grande Bacuri com apoio da brigada de Carlinhos Amorim. Acompanhada de carros de som e de bandeiras hasteadas, a caravana desceu a Rua Euclides da Cunha com uma ótima recepção dos moradores e transeuntes.
     Carlos Hermes tem um compromisso enorme com essa região. Cresceu no Anhanguera e foi membro da comunidade São José do Egito. Fato que não interfere, de modo algum, na responsabilidade assumida com os outros bairros. Como reforçou o candidato a vice-prefeito, Clayton Noleto, “Carlos Hermes tem uma longa trajetória de luta por questões que beneficiem a todos, principalmente na educação”.
     Às 20 horas, seguimos para uma reunião no Parque Anhanguera, com falas de moradores locais e do professor Alcindo Holanda. Além de apresentar as propostas de campanha, Carlos lembrou dos vereadores que abandonaram a população e das obras paradas, como a do posto de saúde da Rua 21. Abandono agravado pela falta de saneamento, que levou à infecção e amputação da perna de dona Maria, mãe da anfitriã, por meio do esgoto.
     Nos agradecimentos, Carlos Hermes observou que “a política deixou de ser interessante para as pessoas porque perdeu o caráter de honestidade” e que os presentes provavam que essa situação pode ser revertida. Por fim, reiterou-se o convite à caminhada com Flávio Dino neste sábado, oito, na Praça da Bíblia.